A tokenização de ativos avança de forma silenciosa, porém profunda, dentro do mercado financeiro global. O processo converte direitos econômicos sobre ativos reais, como imóveis, títulos, fundos e recebíveis, em representações digitais registradas em blockchain. Mais do que uma inovação tecnológica, a tokenização reimagina como os mercados emitem, registram, negociam e liquidam ativos.

O que é tokenização de ativos na prática?

Tokenizar um ativo significa criar um token digital que representa a propriedade ou os direitos econômicos sobre esse ativo, registrando-o de forma imutável em uma infraestrutura de registro distribuído, chamada de DLT ou blockchain. Entretanto, a tokenização não cria um ativo novo: ela representa, em formato digital e programável, algo que já existe no mundo real.

Na prática, um imóvel avaliado em R$ 10 milhões pode se dividir em 100 mil tokens de R$ 100 cada, permitindo que investidores com capital reduzido acessem o mercado imobiliário. Primeiramente, isso elimina uma das barreiras mais antigas do mercado: a necessidade de capital elevado para acessar ativos de alto valor.

Quais são os principais benefícios em comparação ao modelo tradicional?

O modelo tradicional de emissão e liquidação de títulos envolve múltiplos intermediários, prazos de D+1 ou D+2 e processos de reconciliação paralelos. Com a tokenização, as regras do ativo se programam diretamente em código, permitindo liquidação quase simultânea entre entrega e pagamento. Consequentemente, o processo reduz fricções operacionais, custos e o tempo de execução de transações.

AspectoModelo tradicionalTokenização
LiquidaçãoD+1 a D+2Quase simultânea
FracionamentoLimitadoAltamente granular
Horário de negociaçãoDias úteis e horário comercial24 horas, 7 dias por semana
IntermediáriosMúltiplosReduzidos por contratos inteligentes
RastreabilidadeParcialImutável e transparente

Além disso, os contratos inteligentes automatizam a liquidação das operações a partir do bloqueio prévio dos ativos e dos recursos envolvidos, reduzindo falhas operacionais e aumentando a eficiência em transações menos complexas.

Qual é o estágio atual da tokenização no Brasil?

O Brasil ocupa uma posição relevante nesse movimento. A plataforma RWA Monitor registrou cerca de R$ 6 bilhões captados via tokenização no país, em projetos que abrangem o setor financeiro, a agricultura e a saúde. Em comparação, as emissões de dívida tradicionais captaram R$ 544,8 bilhões em 2025, segundo a ANBIMA. Todavia, o avanço já indica uma tendência em formação.

A Resolução CVM 88 consolidou-se como o principal marco normativo para emissões tokenizadas no Brasil, enquanto o Banco Central editou resoluções que disciplinam os prestadores de serviços de ativos virtuais. No entanto, o projeto Drex, o real digital brasileiro, passou por uma reavaliação importante no final de 2025, quando o Banco Central decidiu descontinuar a plataforma blockchain utilizada nas fases iniciais de testes.

Quais ativos o mercado já tokeniza com mais frequência?

Os casos de uso mais avançados se concentram em fundos de curto prazo, títulos públicos, crédito privado e operações de colateral. No setor imobiliário, a tokenização cria tokens que representam direitos econômicos, como participação em aluguéis, ainda que não substituam o registro de propriedade formal. Ademais, recebíveis previsíveis, direitos autorais e até receitas futuras de atletas e artistas figuram entre os modelos experimentais em desenvolvimento.

Quais são os desafios que ainda freiam a tokenização?

Apesar do avanço, a tokenização enfrenta desafios concretos. A segurança jurídica sobre a titularidade de ativos tokenizados ainda gera debates regulatórios. A interoperabilidade entre plataformas diferentes representa outro obstáculo técnico relevante. Porém, o desafio mais crítico permanece sendo o arcabouço jurídico: definir como reguladores tratam tokens que exibem simultaneamente características de valor mobiliário, direito creditório e representação de propriedade.

Também vale destacar que o retorno ao investidor nem sempre supera o modelo tradicional. Em emissões estruturadas dentro do modelo convencional, o uso de blockchain não garante retorno adicional, pois a estrutura de custos e riscos permanece essencialmente a mesma enquanto os ativos continuam fora da blockchain.

Tokenização como infraestrutura, não como especulação

O ponto central que diferencia a tokenização das narrativas mais especulativas do mercado cripto é exatamente esse: trata-se de uma reengenharia operacional do backoffice financeiro combinada com novos trilhos de distribuição. O objetivo não é criar novos ativos, mas tornar os existentes mais eficientes, acessíveis e negociáveis. Projeções de consultorias internacionais apontam que o mercado de ativos tokenizados pode alcançar trilhões de dólares até 2030, embora ainda represente uma parcela pequena do sistema financeiro global.

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